Sobre palavras gravadas em papeis; sobre livros;
Livros fechados em uma estante. Não adianta, sempre
que olho para eles e para seus sonhadores títulos, sempre vejo seus personagens
saindo, se desdobrando pelas pequenas brechas e pondo-se a encenar e dançar.
Não dá, vejo a poeira das ruas, sinto o vento dos morros uivantes, sinto a
vacilante pedra da alta montanha que deve ser escalada— tudo isso saindo de
dentro dos livros que li, de qualquer estante que seja. E sobre os que ainda
não tive o prazer ou desprazer de ler, crio eu mesma uma história prévia. Meio
desconfiada, vejo a capa, passeio pela fonte do título e acabo por caminhar, em
um instável, ainda que possível território que o título sugere. Da
encosta do lago gelado vejo uma floresta de abetos verdes, de doer a vista de
tão real que parecem, ao longe. E ai decido se vale a pena ou não atravessar a
fria água. Títulos sombrios sugerem histórias igualmente sombrias e nessas não
perco tempo, assim como as fantasias fazem, já visualizo logo grandes torres
sob o luar, sacrifícios, e estranhos seres antropomórficos.
Não esqueço, cada livro que li prensa suas iniciais com brasa em minha mente,
de forma que fisicamente meu cérebro é cheio de símbolos sem sentido, tenho
certeza. As histórias são por demais reais para que fiquem só na imaginação.
Estão apenas a letras de distância.
Fito o livro, e subitamente estou em alguma de suas páginas, vivendo tudo
novamente, já que nunca parei de fazê-lo desde o dia que o li, a anos atrás;
não importa.
Bendita seja a linguagem, bendito seja o cérebro humano, mesmo que me lance em
terríveis dores metafísicas, me torna múltipla, livre para devagar sobre
domínios diversos. Permite-me ver coisas que não estão aqui, me deixa lembrar o
que nunca senti. Deixa-me ler e viver outras vidas, tão profundas e labirínticas
como seus sulcos e giros.
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