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Fractais

Deus, se é que ele existe, quando me fez..  errou . Em um frágil corpo inseriu, ao invés de uma alma, várias. Que conflito. É isso. É por isso que ouço vozes gritando, discutindo. Todas elas querem sobressair-se, afirmar quem são ou quem não são. As formas que vejo quando fecho minhas pálpebras são as formas duelando eternamente no limbo da minha mente desgastada, esticada, volatizada e multifacetada. Sou um cadáver, um zumbi que morreu mil mortes, cada uma como um ser diferente. Morri dentro de mim mesma, e a materia das almas, postumamente, agoniza. Querendo ser em um corpo que não resistiu, perambulam por ai tendo nostalgias das diversas pessoas que já foram um dia, em velhos mundos, regozijando-se dos fragelos das douradas lembranças. Fractais, sim! Neles derreto, neles vivo em uma agonia prazerosa a perecer.

ventania

Pela escura noite premeditada, o restolhar prossegue. Enquanto há luz, vermelha luz, o sangue é lembrado e pelo corpo ele faz sua travessia. A tarde dá seu adeus ao deus da inquietude, e o mundo dorme­,– ele já está muito cansado, afinal não há extinguir para o pensar em um mundo de tamanha proporção. Em um silêncio sem vozes humanas, pode-se em fim chorar sem falsidades. Em colinas inóspitas não há vivalma que não lamente o peso de sua alma em vida. Tão silencioso é o coro que o vento carrega apenas a essência rica e feliz da terra e das plantas. A ventania que varre o bosque entre os morros não imagina o tornado que o caos instaura lá em cima, onde há tão poucas casinhas espalhadas. Tornado de silêncio. O grito é tão alto que não se pode ouvir. Ele entrou para dentro, teve força o suficiente para isso, e o fez; se apossou do corpo. É o vento. O céu vestido em seu traje de fogo veronil, sem necessidade e abafante, lança sobre os corações sentimentos ardentes. Uma vez sentidos, se está...

Sobre palavras gravadas em papeis; sobre livros;

 Livros fechados em uma estante. Não adianta, sempre que olho para eles e para seus sonhadores títulos, sempre vejo seus personagens saindo, se desdobrando pelas pequenas brechas e pondo-se a encenar e dançar. Não dá, vejo a poeira das ruas, sinto o vento dos morros uivantes , sinto a vacilante pedra da alta montanha que deve ser escalada— tudo isso saindo de dentro dos livros que li, de qualquer estante que seja. E sobre os que ainda não tive o prazer ou desprazer de ler, crio eu mesma uma história prévia. Meio desconfiada, vejo a capa, passeio pela fonte do título e acabo por caminhar, em um  instável, ainda que possível território que o título sugere. Da encosta do lago gelado vejo uma floresta de abetos verdes, de doer a vista de tão real que parecem, ao longe. E ai decido se vale a pena ou não atravessar a fria água. Títulos sombrios sugerem histórias igualmente sombrias e nessas não perco tempo, assim como as fantasias fazem, já visualizo logo grandes torres sob o lua...

Janeiro, de novo. Depois do novo, vem o medo.

 Ele mesmo, o janeiro. Quase no seu fim encontro o começo. O começo de um novo sentimento, sobre ele, o janeiro. Já te elogiei e elegi o melhor dos meses. Frivolidade? sim, é claro. Mas diga-me o que não o é, nesse mundo de planaltos, nesse mar montanhoso. Engole-me os presságios do próximo, sim, aquele lá. Ele está se esgueirando pelas esquinas. Vejo seus olhos espreitando na escuridão. Pensa que não o vejo, mas como não poderia? o mundo é meu, crio ele a todo momento, atualizo-o! Forma e ato, aquela velha conversa filosófica... Pois é, então como um detalhe que se transferiu da minha inconsciência em direção à consciência poderia me escapar tão fácil? Não, é assim que as coisas funcionam. Lá está ele, o medo do próximo, do desconhecido próximo. Queria viver no eterno presente desse dia? Claro, mas, novamente, não é assim que funcionam as coisas nesse tal de Janeiro. Sempre ele acaba, e dá início ao próximo mês, o fevereiro. Não, não é dele que tenho esse medo.