ventania


Pela escura noite premeditada, o restolhar prossegue. Enquanto há luz, vermelha luz, o sangue é lembrado e pelo corpo ele faz sua travessia. A tarde dá seu adeus ao deus da inquietude, e o mundo dorme­,– ele já está muito cansado, afinal não há extinguir para o pensar em um mundo de tamanha proporção. Em um silêncio sem vozes humanas, pode-se em fim chorar sem falsidades. Em colinas inóspitas não há vivalma que não lamente o peso de sua alma em vida. Tão silencioso é o coro que o vento carrega apenas a essência rica e feliz da terra e das plantas. A ventania que varre o bosque entre os morros não imagina o tornado que o caos instaura lá em cima, onde há tão poucas casinhas espalhadas. Tornado de silêncio. O grito é tão alto que não se pode ouvir. Ele entrou para dentro, teve força o suficiente para isso, e o fez; se apossou do corpo. É o vento. O céu vestido em seu traje de fogo veronil, sem necessidade e abafante, lança sobre os corações sentimentos ardentes. Uma vez sentidos, se está fadado a morrer sentindo. Há uma noite sombria a caminho, mas nada importa. Acendem-se os candelabros, as velas irão iluminar a devoção, com isso acende-se também a vontade. O céu é vermelho feito sangue, assim como os seres que cá se regozijam e preconizam o que fala o coração. Tudo em volta pode parecer ocultar a agitação que há no silêncio. Mas a natureza é apenas cúmplice, ela apenas reverência através de sua beleza a beleza do choro silencioso ou silenciado, que apenas quer contribuir com o espetáculo à sua maneira. Olhando de longe o vendaval oculta tudo até o dia seguinte. Pensa-se que o por do sol é o fim da peça. Nunca saberá, portanto, o que o uivante vento carrega consigo através da bela madrugada..


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